…dos dias inglórios…

Olhei para o meu colo e reli aquele título pela milésima vez, estava entediada, o sol parecia tilintar sobre os vidros do ônibus e, só isso me deixava cansada, fiquei impacientemente praguejando a demora.

Olhei o título de novo e revirei os olhos até acabar parando sobre um pequeno garoto, devia de ter uns oito anos e estava ali no sinal, carregava uma bacia cor de abóbora na cabeça com frutas ali armazenadas, sua pele? – negra.

Bermuda surrada, chinelos sujos, camisa de campanha eleitoral um número maior, naquele momento eu não pensei “como a gente reclama de barriga cheia, né? Vê só, crianças passam fome e tudo o mais”, eu conhecia esse discurso e me irritava com o fato de que todo projeto de bom samaritano o usava, mas de quê adiantava só falar? Era como usar a ferida do outro pra lidar com sua covardia em levar a própria vida, estancar seu sangue. Essa terapia era egoísta e cruel.

Minha mente me levou a tagarelar silenciosamente questões hipotéticas, em como aquele menino poderia ser um Machado de Assis, eu pensei em quantos Da Vinci, Darwin, Curie, Kahlo e Platão estavam perdidos por aí, estão nos sinais vendendo bala, nos metrôs engraxando sapatos, dormindo em calçadas e comendo restos de alimentos, pensei em como possivelmente nenhum deles vá chegar a ter contato com a arte, com a literatura e com os instrumentos musicais, as coisas que de certa forma nos mantém vivos, acesos, como um fogo árcade.

Sim, eu queria poder colocar minha mão sobre a pequena criança e abençoá-la como uma mãe abençoa seu filho, queria que cada poro infectado pelos traumas e dores desaparecesse como nuvens de um céu limpo, queria que ela virasse um manifesto de arte e que seu coração fosse assim como a licença poética permite “uma célula revolucionária”, uma célula que se expande e multiplica-se por amor, desconhece qualquer outro sentimento porque o amor bastava. O amor sempre bastou. Mas eu não era nada, ninguém e nunca seria.

Praguejei à mim mesma e o sinal ficou verde.

16 comentários Adicione o seu

  1. Igorpereira15 disse:

    Legal, muito inspirador… parabéns pelo post.

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    1. Maby Ferreira disse:

      Oh! Obrigada pela leitura, Igor! 😊

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  2. Lucas Martins disse:

    Não se cobre tanto pequena criança! A vida é essa estrada cheia de curvas tortuosas, a gente faz o que pode!

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    1. Maby Ferreira disse:

      Esse “pequena criança” é uma espécie de deboche com minha baixa estatura? Hahaha! 😜

      Brincadeiras à parte, obrigada pelo conselho! 🙂

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  3. Jorge Sasgarante disse:

    “Praguejei à mim mesma e o sinal ficou verde.” -> garantiu-se demais no poder do pensamento 🙂 a parte da “célula revolucionária” lembrou-me de um trecho do filme Edukators 🙂

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    1. Maby Ferreira disse:

      O universo têm dessas de acompanhar o fluxo da mente hahaha! ^^

      P.S: Edukators é uma versão cult de the bling ring? Haha, brincs… Nunca vi! rs

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      1. Jorge Sasgarante disse:

        huahuahuau bom link entre bling ring e edukators 😀 eu fiquei pensando aqui: vei, link massa 🙂 porque em edukators eles também invadem casas, mas digamos que tem uma diferença entre o motivo das invasões 🙂 aqui o trailer do edukators: https://www.youtube.com/watch?v=fvb5oi3ba60

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      2. Maby Ferreira disse:

        Hmm, um drama bem aventuresco! (Devo dizer que drama é meu gênero favorito?! rsrs) :pp

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      3. Jorge Sasgarante disse:

        além do drama, uns filmes com transtornos psicológicos huauhahua 🙂 depois, conheça este site: http://mytwothousandmovies.blogspot.com/ as legendas estão em Português de Portugal 🙂 (o site anterior era my one thousand movies)

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      4. Maby Ferreira disse:

        Exatamente isso, Jorge! heuehe 😁😉
        Adorei os filmes dispostos no site, já me pescou alguns títulos! ^^
        Muito grata! 💛

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      5. Jorge Sasgarante disse:

        you’re welcome, maby do coração amarelo 🙂 ei, pow, tu és de recife é? (é porque vi que a outra manola que escreve com você no site é pernambucana. se bem que ela pode ser apenas pernambucana e não morar em recife ahuuhauhahua ai ai, como eu careço de lógica) ótimo dia e tudo o mais!

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      6. Maby Ferreira disse:

        Eu ri com isso do “maby do coração amarelo” hahaha… Eu sou pernambucana, porém do sertão! 💛
        [embora esteja juntando os trapinhos pra ir msm pra capitá ano q vem] rsrsrsr… ;**
        Ótimo dia! ^^

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      7. Jorge Sasgarante disse:

        aeww!! seja já muito pré-bem vinda 🙂 uhahuahua ;*** eu moro em recife, mas já morei no sertão também. já morei em floresta dos navios e serra talhada 🙂 e já visitei triunfo. e garanhuns e gravatá 🙂 e as vezes vou em carpina (mas não é sertão. descobri isso dia desses. as vezes a minha burrice permite lembrar que existe sertão, agreste e zona da mata :)) aeeww!! ótimo dia aeee maby do coração amarelo! hauhuahuahua eu ia perguntar como é que faz o coração amarelo. eu procurei no google emoticon wordpress e só tinha como era o coração vermelho. eu pensei eitá porra!!! é porque maby é única e só ela tem o coração de ouro amarelo huahuahua 🙂 é a galega do coração amarelo 🙂 ótimo dia e tudo o mais! banda boa com galega no vocal: https://www.youtube.com/watch?v=ciUgdU4mlhI

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      8. Maby Ferreira disse:

        Ah, não acredito, que legal!! ^^ Eu moro em Arcoverde, mas minha família é toda de Floresta do navio! heheh
        Ei, essa banda é muito boa, vou ouvir mais dela aqui. 🎵

        P.S: O coração amarelo por aqui é no teclado mesmo, nada especial. Haha ;))

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      9. Jorge Sasgarante disse:

        como assim, nada especial? vei! você tem um coração no teclado! um teclado que veio com coração, sem nenhuma muganga mágica (o famoso ). isso é um sinal de futuro sucesso literário 🙂 a única pessoa que veio com um coração no teclado (ou seja um coração para as teclas, as letras, o escrever, etc) uhahuahua se garante demais ae maby! 🙂

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      10. Maby Ferreira disse:

        hahahahah essa viagem aí, hein! 😉

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