Baco Exu do blues – Bluesman

Falar sobre Bluesman requer cuidado. Esse é o tipo de disco pra ser explorado em todo o seu caminhar, como um quebra-cabeça divertido e inteligente. O baiano Diogo Alvaro Ferreira Moncorvo mais conhecido pela alcunha Baco Exu do blues é a voz e cabeça por trás dessa empreitada. Um trabalho que chamou atenção até da Beyoncé e Jorja Smith. O hype aqui é bem-vindo, pois não.

O álbum lançado no dia 23 de novembro, veio pra quebrar paradigmas sociais. É sobre amor, depressão, dor e, sobretudo, ser negro na sociedade.

Meu primeiro contato com o cantor foi justamente com a faixa-título, uma canção que inicia o álbum e deixa o recado em miúdos bem enxutos. O cantor não poupa deboches a sociedade hipócrita emoldurado por um som que é mistura de rap e trap com pitadas de soul, R&B, samba e música latina.

Baco explica na faixa o que seria bluesman. Blues seria tudo aquilo de origem negra que era demonizado e que passou por processo de branqueamento assim tornando-se bonito, aceito. A ideia inicial do álbum é ter um disco de blues sem tocar blues. É sobre o sentimento que o ritmo transmite e carrega ao longo dos tempos.

Eu sou o primeiro ritmo a formar pretos ricos, primeiro ritmo que tornou pretos livres (…) tudo que quando era preto era do demônio, e depois virou branco foi aceito eu vou chamar de blues. É isso, entenda. Jesus é Blues.

A faixa ainda marca com o seguinte trecho: “Eles querem o preto com a arma pra cima, num clipe na favela gritando ‘cocaína’, querem que nossa pele seja pele do crime, Pantera Negra seja só um filme (…)” 

REPARA SÓ NESSE FILME (melhores 8 minutos pro seu domingo!)

A música tem cor sim, e ela é negra. Esse é o recado inicial. O Jazz é negro. O samba é negro. O soul é negro. O rock é negro. O Blues é negro. É sobre respeitar a história, o povo e a cultura. É sobre quebrar estereótipos, rótulos, preconceitos.

Depois do impacto inicial, o disco muda de tema e vai entrando numa aspiral entre dor e amor. Com participações especiais de doer a alma, Baco explica que convidou músicos que conseguiam exprimir o sentimento do blues na voz, que rasga. ‘Queima minha pele’ entra com a voz do Tim Bernardes e a gente já consegue sentir o sol entrar pela janela quando a alma ainda está cinza, é uma musica sobre depressão, delicada.

“Me desculpa Jay-z” é uma balada melancólica que trata sobre bipolaridade e baixo auto-estima, sobre sentir-se subjugado. A música conta com a participação de 1LUM3 e torna-se viciante.

Eu não gosto de você/ não quero mais te ver/ Por favor, não me ligue mais / Eu amo tanto você, sorrio ao te ver/ Não me esqueça jamais.

(Me desculpa Jay-z)

“Girassóis de Van Gogh” é uma canção que a princípio você não consegue distinguir muito bem sobre o que se trata, é necessário ler as entre-linhas. Quando inicia com “te engravido toda noite só para ver o sol nascer”, o Baco diz que isso tem a ver com a ideia de se agarrar a alguma coisa pra poder viver [suicídio é tema]. A alusão aos girassóis do pintor é também sobre falar na urgência de viver, na pressa com que a vida passa “gira gira girassóis de Van Gogh”, a pressa que ele pintava antes da tinta secar.

O álbum também deixa marcas com a canção “Kanye West da Bahia” que é sobre a admiração pelo artista símbolo de criatividade e confiança nestes tempos, sobre jogar os rótulos para o alto e dizer ‘ei, eu faço poesia, sim’. Em “Flamingos” com as participação do trio Tuyo (preciso fazer post sobre, sério!) é uma musica sobre co dependência emocional e sobre a solidão da mulher/homem negro nos relacionamentos (mas também sobre o desapego das relações atuais em geral), o trecho inicial já diz “me deixe viver ou viva comigo, me mande embora ou me faça de abrigo”, esse lance de amores líquidos, sabe? Então!

O Baco deixa lá no finalzinho o momento ácido, onde ele descarrega toda a munição no opressor, a canção “Preto e prata” se consagra com uma artilharia bem precisa para a branquitude ignorante e preconceituosa.

Bluesman no fim é um álbum que mostra o Baco em carne e osso, sem esconder sua fragilidade e estampando um álbum repleto de referências bem estudadas e sofisticadas, mostrando que o rap tem contexto e conteúdo. Bluesman acaba sendo uma obra de arte da cultura negra, de identidade.

P.S: considero o álbum nacional do ano, pois não! ♡

P.S 2: Especialmente pra duas Mayaras, a Mayara Freire (minha web amiga que também amou o álbum) e a minha prima Mayara Sá que disse não gostar, mas eu disse que ia converter a situação, claro.

Álbum completo:

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7 comentários Adicione o seu

  1. Mayara Freire disse:

    Ah, mais eu amei o que você escreveu! Alem de muito bem escrito – como sempre – suas palavras dissecam bem esse álbum que toca a fragilidade humana com delicadeza e poesia flertando (na verdade está mais para um relacionamento sério, né?) com coisas tão serias quanto o racismo e questões psicológicas e o amor em si. Obrigada por isso ❤
    P.S.: Fala de Tuyo sim rs (acompanho pouco o trabalho, mas pretendo ouvir mais)
    P.S.2: Amores líquidos tipo Bauman? Fala sobre também rsrs

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    1. Maby Ferreira disse:

      Mayara,

      Tu como sempre tecendo comentários que agregam, ser humano de luz mesmo (não canso de dizer)!
      Ah, obrigada tu que me incentivou ainda mais a escrever e pelos “P.S” bem interessantes. ;****

      Curtido por 1 pessoa

    1. Maby Ferreira disse:

      Espero que signifique um “uau”, hahaha P.S: faltou-me um cadinho de modéstia hoje rs

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      1. mariel disse:

        É uau, em gauchez

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  2. Mayara Sá disse:

    Devo admitir que o filme bluesman ficou impecável e cativante, digno de ser igualado a material internacional. Quanto ao CD achei muito bem produzido, percebe-se claramente que ele quis entregar uma obra completa ao público. O conjunto todo ficou envolvente, porém, SE não fosse as composições das letras que na minha humilde opinião, faltou em determinados pontos uma relação com o sentimento do rap, onde em determinados pontos das letras é possível fazer um recorte para outros estilo musicais e outros temas de música que não costumam fazer estreita ligação com o rap. Mas, de resto como já disse ficou uma obra agregadora e cativante artisticamente ao seu público

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    1. Maby Ferreira disse:

      Nossa, que grossa. hahaha! brincadeira…
      Eu particularmente acredito que ele não fugiu dos temas advindos do rap, acho até que o álbum se consagrou por isso. Sobre o estilo é meio que pensar “eles querem o negro com a arma pra cima, num clipe na favela gritando cocaína.”, não pode glamorizar o rap com outras vertentes? Logo quando a musica deveria não ter limites e quando o negro é facilmente associado a “musica de marginal”? Enfim, pelo menos elogiou alguns aspectos! hahaha bjos, mayara!

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