Os livros de dois mil e dezoito

Depois da lista de filmes e álbuns, é chegada a hora de indicar as leituras desse ano cor-de-cinza, mas que me trouxe GRANDES aprendizados. Li bem mais a partir do segundo semestre (pós copa, né pessoas!), então vejamos as que mais gostei!

1- Pálido ponto azul – Carl Sagan

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O que posso dizer? Sagan tem uma linguagem inteligente, elegante e bem humorada,  apesar de ser uma obra com uma análise profunda e consistente sobre o passado, um retrato crítico do presente e especulações pertinentes das perspectivas para o futuro humano, o leitor não é desamparado nunca. O ponto alto é justamente isso, o leitor ainda que detenha pouco conhecimento sobre astronomia, biologia e/ou geologia (meu caso), facilmente compreende os textos e se encanta com eles. Sagan fala dos corpos do sistema solar e de outros sistemas, sobre história, mitologia, física, química, de maneira clara e responsável, tendo embasamento científico e, ainda, uma sensível liberdade poética. É um livro fácil de ler e carregado de profundo conhecimento.

“Antes de inventarmos a civilização, nossos antepassados viviam principalmente ao relento, a céu aberto. Antes de inventarmos luzes artificiais, poluição atmosférica e formas modernas de diversão noturna, observávamos as estrelas. Havia razões práticas relativas ao calendário para esse hábito, mas ele significava muito mais. Mesmo hoje, o habitante mais fatigado das cidades pode comover de repente ao ver o céu de uma noite clara salpicado de estrelas cintilantes. Depois de todos esses anos, isso ainda me deixa sem fôlego.”

2- O amor nos tempos de Cólera – Gabriel Garcia Marquez

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Sabe aquele livro pra grifar fragmentos e espalhá-los nas redes sociais ou deixá-los na agenda? Então! O romance tem uma narrativa prazerosa e poética, mesmo que não haja capítulos a narrativa flui sem quebra e as personagens são sutilmente construídas. A história tem um certo ar de solidão mesclada a pontos cômicos, mas que não foge da realidade apesar da presença do realismo fantástico. O ponto alto aqui é que ‘o amor nos tempos de cólera’ é uma enciclopédia sobre o amor, é possível encontrar em suas páginas praticamente todas as manifestações reais ou imaginárias de tal sentimento, em uma história simples contada de forma visceral.

“Ele ainda era demasiado jovem para saber que a memória do coração elimina as coisas más e amplia as coisas boas, e que graças a esse artifício conseguimos suportar o peso do passado.”

3- O pintor que escrevia – Letícia Wierzchowski

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Esse livro é como um quadro sendo pintado por um célebre artista. O livro é obra da brasileira Letícia W. e a narrativa da autora é bem descritiva, como se ela tivesse a intenção de pincelar os ambientes e personagens com precisão em sua cabeça. A descrição da serra gaúcha, da atmosfera, dos jardins, da casa… O ponto alto é envolver-nos em um mistério sobre o amor por meio da arte e, neste caso, não só da escrita. É um livro sensível em cada linha percorrida, cheio de cenários e personagens dignos de filme.

“A tela recebeu uma única pincelada, está firme em seu tripé, aguardando. Atrás dela, presas às paredes do ateliê, enfileiradas, estão as muitas obras que Marco Belucci pintou no Brasil. Entre rostos angustiados de mulheres de olhos vazados e risos de escárnio, destaca-se a figura de Amapola, muitas vezes repetida. Bela, triste, dormente, âmbar, com asas, desfalcada de boca, de mãos, de olhos, azul e carmesim; são tantas Amapolas erguidas no ar, um sem-fim delas.”

4- A insustentável leveza do ser – Milan Kundera

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É aquele tipo de livro tão intenso que pode mudar sua concepção de mundo. Um livro que é uma viagem pela história e filosofia, com reflexões profundas sobre as escolhas que fazemos ao longo de nossas trajetórias. É uma narrativa que acompanhando a vida dos quatro personagens e seus relacionamentos conturbados mais parece um ensaio filosófico, com teorias de Nietzsche, Sartre e Parmênides. Para mim, o ponto alto nessa obra foram os temas e o quanto Kundera soube explorá-los para quem o lê, é um livro complexo e ainda assim leve – desestabiliza e afaga.

“Aquilo que não é consequência de uma escolha não pode ser considerado como mérito ou fracasso. Diante de uma condição que nos é imposta, é preciso, pensa Sabina, encontrar a atitude certa. Parecia-lhe tão absurdo insurgir-se contra o fato de ter nascido mulher quanto glorificar-se disso.”

5- Cartas a Theo – Vicent Van Gogh 

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Sempre achei a figura do Van Gogh grandiosa e cercada de mitos, mas me encantava saber que mesmo ele tendo vendido apenas um quadro em vida não deixou de pintar até seus últimos segundos de ‘existência’. Van Gogh se transformou em um simbolo, o qual não conseguimos compreender inteiramente. Em cartas a Theo, correspondências que trocava com o irmão mais novo, é possível explorar o lado humano e pessoal do Van Gogh. O conjunto das cartas de Vincent é uma janela para a alma e mente desse grande artista que dedicou a vida à arte. O ponto alto é poder acompanhar seus projetos e a criação de algumas das obras por sua própria percepção, é o tipo de leitura emocionante.

“Às vezes é bom ir ao fundo e frequentar os homens, e às vezes somos até obrigados e chamados a isto, mas aquele que prefere permanecer só e tranquilo em sua obra, e não quer ter mais que uns poucos amigos, é quem circula com maior segurança entre os homens e no mundo. É preciso não se fiar jamais no fato de viver sem dificuldades ou sem preocupações ou obstáculos de qualquer natureza, mas não se deve procurar ter uma vida muito fácil. E mesmo nos ambientes cultos e nas melhores sociedades e circunstâncias mais favoráveis, é preciso conservar algo do caráter original de um Robinson Crusoé ou de um homem da natureza, jamais deixar extinguir-se a chama interior, e sim cultivá-la.”

 

6- Ensaio sobre a lucidez – Jose Saramago

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Um homem a frente do seu tempo. É possível notar o amor de Saramago pelas pessoas comuns em suas atividades mais cotidianas, na vida em si, sem glamour, mas buscando tranquilidade, estabilidade e dignidade. Essa atitude de sensatez das pessoas (ou de lucidez, como sugere o título) é contraposta a dos políticos que se viram alijados do poder pelo próprio caráter representativo do poder. O ponto alto aqui é a possibilidade de discussões acerca da democracia representativa e as nuances mais cotidianas e práticas da política.

“…em toda a verdade humana há sempre algo de angustioso, de aflito, nós somos, e não estou a referir-me simplesmente à fragilidade da vida, somos uma pequena e trêmula chama que a cada instante ameaça apagar-se, e temos medo, acima de tudo temos medo.”

7- Ensaio sobre a cegueira – Jose Saramago (confesso que li depois da lucidez)

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É um livro nas palavras do próprio autor: “(…) tentei dizer que não somos bons e que é necessário termos coragem para o reconhecer”. Com uma narrativa fluida e misturando o discurso direto com o indireto, Saramago fala sobre a cegueira social. A “cegueira branca” passa a representar o pior do ser humano: egoismo, medo, imparcialidade, covardia, raiva e demais sentimentos negativos. O ponto alto é sem duvidas a necessidade de fazermos a autocritica e uma reflexão sobre até que ponto estamos cegos ou somos maldosos.


“Como está o mundo, tinha perguntado o velho da venda preta, e a mulher do médico respondeu, Não há diferença entre o fora e o dentro, entre o cá e o lá, entre os poucos e os muitos, entre o que vivemos e o que teremos de viver, E as pessoas, como vão, perguntou a rapariga dos óculos escuros, Vão como fantasmas, ser fantasma deve ser isto, ter a certeza de que a vida existe, porque quatro sentidos o dizem, e não a poder ver”

8- O amor é um cão dos diabos – Charles Bukowski

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Primeiro livro de poemas do Bukowski que leio. Sendo o bom poeta marginal que é, Buk não deixa de lado as bebidas, o sexo e os amores fracassados. Seus poemas são carregados de diálogos bem-elaborados e daquele tipo de humor que só se obtém quando se vive uma situação extremamente crítica. O ponto alto é o quanto é cotidiano, o quanto Bukowski dá voz aos marginalizados, aos filósofos de sarjeta.

“Eu vejo você bebendo numa fonte com suas minúsculas mãos azuis, não, suas mãos não são minúsculas elas são pequenas e a fonte é na França
de onde você me escreveu aquela última carta e eu respondi e nunca mais obtive retorno. você costumava escrever poemas insanos sobre
ANJOS E DEUS, tudo em caixa alta, e você conhecia artistas famosos e muitos deles eram seus amantes, e eu escrevia de volta, está tudo bem, vá em frente, entre na vida deles, não sou ciumento
porque nós nem nos conhecemos.”

9- Os 12 signos de Valentina- Ray Tavares

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Um romance com uma única intenção: Entreter. Essa foi minha leitura mais divertida da ala “coisas que não acrescentam em nada na minha vida”  – acrescentam sim, vai. Eu sou do tipo que não acredita em signos mas adora falar sobre eles, no romance da brasileira Ray, a narrativa leve e fluida faz você querer encontrar seu ‘paraíso astral’, sem neuras. O ponto alto é ser cheio de referências modernas, e com humor bem inteligente além de ter ganchos de fala sobre feminismo, meritocracia e preconceitos.

“Naquela época, eu acreditava que, quando crescesse o suficiente para ser imune aos germes dos garotos, um lindo príncipe encaixaria um sapato de cristal no meu pé e nós viveríamos felizes para sempre em um castelo encantado. Então eu cresci. E descobri que o príncipe está mais para um garoto arrogante e babaca, que não conhece muito bem as regras ortográficas e gramaticais. E não é exatamente um sapato que
ele quer encaixar em você.”

10- Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente

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Finalmente eu consegui terminar de ler esse livro, final do mês passado [metade no início e metade no fim, risos]. O livro dos poemas e textos intimistas. Aquele tipo de livro que faz você ficar com o coração ora derretido, ora dilacerado e ora te ajuda na reconstrução do ser. São poemas delicados, muitos deles meio “auto-ajuda poética” e textos que são como cartas que não foram enviadas, mas chegaram a um destino. Ponto alto é a narrativa tão próxima e singela.

“não existe culpa sobre ombros que tentaram
sobre amores que não deram certo por causa das circunstâncias — e são
muitas — da vida
sobre pessoas que estão à procura de paz.
não existe culpa na partida daquele que você amava demais, tanto que era
capaz de desintegrar feito os átomos ainda não descobertos dentro do
universo da física.
não existe culpa porque culpa é algo pesado e você é leve, incrível e merece
carregar sentimentos bons, mansos e amenos.
sua alma não foi feita pra nadar perdida nesse mar sombrio, não.
ela foi feita pra voar e ser livre
visitar países. adentar territórios.
descobrir e ser descoberta.”

Quase que esse post não sai, né? A casa de vocês também fica cheia no fim de ano e vocês esquecem que tem vida nos eletrônicos? Bom, por aqui vem ocorrendo a situação, mas também confesso que sou daquelas que deixa tudo pra ultima hora.

Desde já, desejo um 2019 com mais alegrias que tristezas! ♡

4 comentários Adicione o seu

  1. Boa lista de 2018! Desejo q em 2019 seja ainda maior.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Maby Ferreira disse:

      Também desejo, Miau! haha! E desejo um 2019 com novas ótimas viagens pra ti (literárias e/ou não!) ♡

      Curtido por 1 pessoa

  2. Bia Ribeiro disse:

    Excelente lista!! ❤
    Ah eu também coloquei um trecho de Ensaio sobre a cegueira em meu blog… mas ainda será publicado (no meu coloco só um trecho de livro por dia rs). Espero que 2019 seja ótimo, e com muitas leituras incríveis!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Maby Ferreira disse:

      Ah, sim haha! Estou gostando de suas reflexões através dos trechinhos, continue! Desejo um 2019 recheado de conhecimento e sabedoria, Bia! 🙂

      Curtido por 1 pessoa

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