Rapaz latino-americano vindo do interior

A figura do Belchior despontou na minha vida há pouquíssimo tempo, pouco tempo depois de sua morte. Antes, eu se quer ouvira falar seu nome, nem escutado quaisquer de suas canções (exceto uma, em outra voz), o que torna engraçado quando digo as pessoas que Belchior é meu artista nacional favorito.

Antônio Carlos Gomes Belchior era cearense, nordeste só me da orgulho (risos). O cara, dono de uma das canções mais conhecidas do repertório da mpb, a famosa “como nossos pais”, que eu jurava  até aquele momento ser da Elis Regina, chegou ao meu ouvido num festival de música aqui na cidade, em 2017 (ano de sua morte). O moço no palco estava a cantar “divina comédia humana”, e eu achei uma musica bem bonita, os versinhos ali musicados do poema de Olavo Bilac (poema via-láctea) me ajudaram, deveras, assim eu pude com facilidade pesquisar em casa e encontrar a música, daí um homem com um bigode afeiçoado e traços de quem ri com facilidade ficou na tela do meu computador, como um convite informal.

Sempre achei que os artistas são responsáveis por oxigenar ideias e trazer reflexões para os ouvintes, a Nina Simone falou tão bem sobre isso, quando ela disse:

Escolhi refletir o tempo e as situações em que me encontro. Para mim, isso é o meu dever (…) Como ser artista e não refletir a época?” 

E foi uma das características que me aproximaram ainda mais do repertório do cantor cearense, quando percebi que ele estava a cantar sobre seu tempo e sobre os tempos futuros, tornando-se atemporal.  Ficava a cantar sobre o seu exílio, sobre o homem do sertão migrando e toda a sua resistência, também estava a cantar sobre o lugar ocupado por nossos ídolos – que ainda são os mesmos – e, num desses, questionou com afinco o lugar de artistas tão consagrados como Caetano, Gil e Chico, chegando a titular Caetano de “antigo compositor baiano”, na canção Apenas um rapaz latino-americano. Era considerado um anarquista quando o assunto era política e a gente percebe a sua angústia cantada quando ele diz em “Alucinação” que não está interessado em nenhuma teoria, pois amar e mudar as coisas lhe interessa mais. Uma canção que é bonita pela narração do cotidiano, do real, quando ele denuncia e reflete junto.

Um preto / um pobre / um estudante / uma mulher sozinha / blues jeans e motocicletas / pessoas cinzas normais / garotas dentro da noite / revólver / cheira cachorro / os humilhados do parque com os seus jornais (…) / meu corpo que cai do oitavo andar / e a solidão das pessoas nessas capitais.

A obra dele, para mim, é uma fonte de conteúdo filosófico, literário, humanista, político e científico. Belchior era um leitor voraz, sua obra dialoga com a literatura brasileira que passa por João Cabral de Melo Neto, José de Alencar, Alvares de Azevedo e Carlos Drummond, este último tornou-se disco nas mãos de Belchior, o cantor musicou 31 de seus poemas em “As várias faces de Drummond” lançado em 2004, além de desenhar 31 gravuras do rosto do poeta mineiro.

937EDC4B-C8CE-48E7-8E17-FB958229078E

E seu repertório é uma obra que dialoga também com a literatura universal, desde William Blake passando por Byron e Poe, até chegar em Rimbaud e Baudelaire.

O compositor cearense
dizia ter mais compromisso
com as palavras do que com a música. 

Era uma pessoa que vivia à flor da pele, gentil, um trovador do sonho e um cronista da música. Alguém que dialogava com vários universos da cultura, que tinha como referências Bob Dylan, Beatles e Rolling Stones.

Abaixo alguns trechos de suas músicas:

7026AC10-58D0-4391-8B2B-621F3C3C3901

Foi por medo de avião que eu segurei pela primeira vez a tua mão / agora ficou fácil / todo mundo compreende / aquele toque Beatle / i wanna hold your hand.

Medo de avião, música que faz referência  a James Dean também.

E97EE3A1-AE3A-44C5-886A-454BD86A4C78

João! / o tempo andou mexendo com a gente, sim / John / eu não esqueço / a felicidade é uma arma quente.

Comentários a respeito de John

D785AB58-CFD6-479C-84EC-42A33954085D

Eu estou muito cansado do peso da minha cabeça / desses dez anos passados / presentes vividos / entre o sonho e o som (…) / quero uma balada nova / falando de brotos / de coisas assim / de banho de lua / de ti e de mim / um cara tão sentimental.

Todo sujo de batom 

760F3CB9-4B1A-4DDB-BA47-8AB16C915E5E

No centro da sala / diante da mesa / no fundo do prato / comida e tristeza / a gente se olha / se toca / e se cala / e se desentende no instante em que fala / medo.

Hora do almoço 

461E9EF3-7069-4868-8356-7EB9756CCE2D

Eu me lembro muito bem do dia que eu cheguei / jovem que desce do Norte pra cidade grande / os pés cansados e feridos de andar légua tirana / e lágrimas nos olhos de ler o Pessoa / e de ver o verde da cana.

Fotografia 3×4 

8EC10714-9830-4849-A111-E72EE33C301F

O que há algum tempo era jovem e novo / hoje é antigo / e precisamos todos rejuvenescer / nunca mais meu pai falou : she’s leaving home / e meteu o pé na estrada / like a rolling stones / nunca mais eu convidei minha menina / para correr no meu carro / loucura / chiclete / e som (…) Como Poe / poeta louco americano / eu pergunto ao passarinho:
Black bird / Assum Preto / o que se faz? / e raven never raven never raven

Velha roupa colorida

D15A6FFD-7156-40FB-9464-076CA84E0BD3.jpeg

Eu quero um gole de cerveja / no seu copo / no seu colo / e nesse bar / meu bem / o meu lugar é onde você quer que ele seja / não quero o que a cabeça pensa / quero o que a alma deseja (…) / o meu coração selvagem tem essa pressa de viver.

Coração Selvagem 

belchior (1)

Tenho sangrado demais / tenho chorado pra cachorro /
Ano passado eu morri / mas esse ano eu não morro

– Sujeito de sorte

image_processing20200201-29235-112q5zz

nunca fazer nada que o mestre mandar / Sempre desobedecer / Nunca reverenciar.

-Como o diabo gosta

belchior

Trogloditas / traficantes / neonazistas / farsante /
barbárie / devastação / e do Ocidente tão cristão

-Bahiuno

 

Tá bom, melhor eu ir parando por aqui senão irei colocar a discografia completa porque não sou muito boa em ser sútil quando o assunto é música, sou exagerada.

Eu só achei que o Belchior merecia um espaço aqui no meu blogue, pois ele já tem espaço no meu coraçãozinho latino-americano do interior sertanejo. Bel reflete uma época iluminada das artes, os anos 70 que muito me atrai, me traz curiosidade. Um cantor folk-blues, cheio  da cultura nordestina e do cavalheirismo sentimental. Viva, Belchior!

590EA2DF-AEC7-4478-96F9-615399EF2870.jpeg

Aqui fica uma playlist:

9 comentários em “Rapaz latino-americano vindo do interior

Adicione o seu

  1. Muito sentimento no texto. Parabéns!

    Eu vi Belchior em 2000, acho que no mês de julho. Ele estava a poucos metros de mim, sentado à janela de um trem. Falava com alguém e sorria.
    Senti ser uma pessoa simples e doce. Bem, como uma de suas letras…eu sou apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no bolso,…

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigada por compartilhar comigo essa lembrança, Miau! Eu realmente fiquei a imaginar a cena, eu smp amei pessoas q exalam simplicidade e doçura, então, mais q antes “viva, Belchior!” 💛

      Curtido por 1 pessoa

  2. Quando você diz que Belchior entrou em sua vida só depois da morte recente do cantor, fico a imaginar o quanto nossa ‘cultura’ desperdiça oportunidades e talentos. Minha esposa, por exemplo, só descobriu um cantor mineiro (Vander Lee) depois que que ele morreu. Eu comentei sobre a morte dele muito jovem’, ela ouviu umas duas músicas e virou fã. Por outro lado, e para além das questões culturais brasileiras que nem sempre valoriza o que temos de bom, é bacana saber que uma pessoa quando deixa um legado, a morte não impede que sua obra continue a provocar mudanças… Boa semana.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Sim sim sim! Fiquei pensando sobre isso também, principalmente por sermos, eu e o Belchior, da mesma região do país. A cultura brasileira deveras fragilizada ao longo do tempo, infelizmente. Mas é isso, a arte fica a resistir existindo no espaço-tempo. Boa semana a ti tbm! 😄

      Curtir

  3. no exercício do ofício tive a felicidade de entrevistar Belchior. experiência humana indescritível e ao mesmo tempo repleta de cultura, sabedoria e humildade. conheço sua obra e seu trabalho desde que se tornou único, junto com o Pessoal do Ceará – um jovem Fagner maravilhoso com Manera fru fru Manera – e outros mais. muito oportuno o post, pois como você disse, Belchior mais que atual é atemporal. o meu abraço.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Me causando um “cadinho” de inveja, porque depois de conhecer a obra do Bel, tudo que a gente queria era um “dedo de prosa” com ele rsrsrs… Gosto quando chama de experiência humana, é bem esse o espírito.

      Muito muito obrigada por compartilhar!
      Abraços! ^^

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: