“Se for, vá na paz”, recado dado em Bacurau

Ao subir os créditos de Bacurau o que resta na sala de exibição são rostos bem expressivos, rostos que ali se entregam extasiados, faltam palavras nos lábios que estão naquele ambiente ainda escuro, as pessoas se entreolham sorrindo satisfeitas, aplaudem o letreiro que está a dizer “este filme gerou mais de 800 empregos”, comemoram a resistência do cinema nacional, da ANCINE, da arte. Se em Cannes os aplausos do Júri emocionaram a co-direção Kleber Mendonça Filho (O som ao redor e Aquarius) e Juliano Dornelles ao levarem o prêmio do júri. Os aplausos na sessão em que eu estava – de nós mesmos – , de certo emocionaram os espectadores na mesma intensidade, bem, eu estava profundamente emocionada.

O cinema e a região Nordeste são alvos do atual governo. Entre piadas sobre, o uso de termos como “nordestinos da cabeça grande” e “paraíbas” de forma pejorativa, o governo de Bolsonaro ameaça a Ancine e chegou a cortar 43% do Fundo do Audiovisual. Enquanto isso, nordestinos do cinema ganharam notoriedade em Cannes. O filme se destaca pela força, o sentido de reorganização e coletividade.

É que Bacurau diz muito sobre mim, diz muito sobre NE e sobre nosso país como um todo, um filme que fala sobre luta e resistência, sobre a tentativa de extermínio da nossa história, da nossa cultura, dos nossos ideais, do nosso passado e memória, aliás, Bacurau que é município fictício que dá nome ao filme,  se agarra a figura do museu – ponto turístico na cidade –  para deixar isso bem evidente.

Dividido em três atos, ainda que não feito com letreiros de divisão em tela, o filme passa por um tom quase de documentaria, tornando o suspense algo verdadeiramente instigante e colocando a gente em contato com aquele estranho local, aquelas pessoas que a propósito, são vividos sim por atores, mas por não-atores também, tornando a experiência ainda melhor. Os atos seguintes brincam com o cinema trash norte-americano ao ganhar mais velocidade, muita violência, personagens caricatos bem maquiavélicos e soluções rápidas, aqui a linguagem e a atuação mudam de tom, torna a experiência alucinante, principalmente por ter personagens estrangeiros em cena, ou seja, Bacurau não deixa esquecer em nenhum momento o contexto de tudo aquilo, o quão cruel e forte é a mensagem, ao chegar no terceiro-último-e-melhor-ato, a gente se entrega a experiência por absoluto, assim como também os diretores o fizeram, a gente se une a mensagem porque ela já faz parte da gente.

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Bacurau usa muitas metáforas, mas sem dúvidas, a escola como ponto de proteção é excelente. Ao estarem munidos de conhecimento, não há como serem derrotados. O cenário ser nordestino, no sertão pernambucano, também diz muito sobre isso, sobre como somos inferiorizados pela região sulista e, ainda assim, resistentes. Povo bravo, destemidos, críticos, pessoas que não aceitam sucumbir-se a narrativas que defendem o interesse privado, burguês, imperialista. Povo que não aceita renegar suas raizes, toda a sua áurea solar e que tomados por um sentimento de coragem, tesão e compaixão são assim feitos, sua essência, essência que ganha forma através de metáfora, pelo uso da semente “psicotrópica”.

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“Se for, vá na paz”, é o letreiro que está na placa que indica a cidade, e diz muito sobre NE. Diz que te esperamos em paz, que esperamos A paz, mas que se não vieres com esse intuito,  sabemos lutar e lutar é um verbo muito forte nessa região.

Das semelhanças estéticas com Cangaço , Bacurau resgata a ancestralidade sertaneja, enquanto retrata os arquétipos da política.

O filme é fabuloso para todo o público brasileiro ver, mas como pernambucana, eu sinto que ele atinge um outro nível de conexão comigo, longe de ser aquele tipo fetichista de comédia pra sulista ver, Bacurau é uma experiência inteligente e bonita.

 

Bacurau* pássaro bravo que tem hábitos noturnos.

– linha de ônibus do Recife que circula na madrugada.

Assista ao trailer:

2 comentários Adicione o seu

  1. Muito bom vc trazer o bom do cinema nacional q querem matar e a realidade do NE.
    Um abre aspas: eu nunca gostei muito da palavra “bacurau”. Rsrs Eu conhecia a palavra apenas como o ônibus q passava de madrugada. Acho q era isso. 🤔😊

    Curtido por 2 pessoas

    1. Maby Ferreira disse:

      Obrigada!!! ☺️
      Também nunca gostei da palavra ‘bacurau’, Miau! Tanto é que quando meu tio sugeriu vermos o filme, eu revirei os olhos a julgar ser mais um comedia sertaneja hahaha! Ainda bem que ele disse “estão dizendo que é um faroeste futurista, tu vai gostar.” Eu adorei. ^^

      Curtido por 1 pessoa

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