Anne with an E – terceira temporada “who is Anne with an E”?

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Anne with an E é uma série baseada em uma coleção de livros chamada “Anne of Green Gables” da escritora Lucy Maud Montgomery, a série é produzida pela CBC canadense e distribuída pela Netflix. Sua terceira temporada que estreou dia 3 de janeiro,  introduziu novas tramas importantes, assim como nos convidou a seguir Anne (Amybeth McNulty) em sua jornada de descoberta pessoal, afinal, Anne viveu boa parte da vida em um orfanato e sem informações sobre sua família. Assim como nas duas últimas temporadas, a série continuou a abordar temas socioculturais sem soar como panfletagem ou modismo, apenas reforçando a personalidade da protagonista e sua necessidade de enxergar o mundo com mais cautela e empatia.

Nessa terceira temporada, ainda que outros personagens ganhem arcos ou sejam melhor explorados e tenhamos histórias secundárias bem executas, a nossa protagonista se desenvolve e se conecta com toda a trama, mostrando a força que ela imprime na história. É uma temporada especial para Anne, não só porque seu romance com o Gilbert (Lucas Jade Zumman) começou finalmente a ser explorado com mais profundidade, mas também, porque a Anne entra nessa busca sobre seu passado, sua origem, quem foram seus pais e se eles realmente a amavam. Essa busca pela sua descendência trouxe conflitos com sua família adotiva, tornando a relação entre eles uma dança de cumplicidade, medo e amor, nos fazendo enxergar como os personagens são desconstruídos para logo depois, serem construídos com novos aprendizados. É emocionante.

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Ka’kwet

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O roteiro da série trabalhou a história original, sem perder a essência dos personagens criados por Lucy, como também introduziu de forma satisfatória enredos e personagens maravilhosos não existentes nos livros, é o caso da Ka’kwet. Nessa terceira temporada, a Anne se conecta com a jovem Índia da tribo Mi’kmaq. Durante o final do século XIX, o Canadá começou a criar “escolas residenciais” que tinha o objetivo de ‘reeducar’ os indígenas, os quais chamavam de “selvagens”. Pela perspectiva de Ka’kwet, nós passamos por esse período sombrio da história. Ela é levada para essa escola e tem sua cultura apagada.  Forçada a abandonar sua língua nativa, seus costumes e suas vestes, além do seu nome e da sua própria família.

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Tragic romance and all? Remains to be seen

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Anne e seus dilemas amorosos ganham destaque nessa temporada, isso porque finalmente ela e o Gilbert passaram a perceber sentimentos que estavam ali o tempo todo, que foram cultivados desde que se conheceram. Na verdade, a criadora Moira Walley-Becket traçou desde a primeira temporada uma narrativa sútil, inocente e beeeeem lenta para esse desenvolvimento. O romance deles passou pela amizade até chegar nesse ponto da história, assim sendo, um casal que foi bem construído, sem ser forçado. A história também trabalhou outros temas dentro do romance, como o preconceito. Diana (Dalila Bela)  e Jerry (Aymeric Jett Montaz) tiveram cenas juntos, mas o romance não vingou, isso porque os dois são de “mundos diferentes”, enquanto a Diana é a jovem rica cujo os pais é quem traçam seu destino, forçando-a a ir para Paris estudar etiqueta para arranjar um bom casamento, o Jerry é um imigrante francês com uma grande família pobre.  Diana não consegue se manter fiel à sua essência (aliás ela é a kindred spirit da Annee acaba partindo o coração do Jerry.

 

[os fãs de Shilbert surtaram nesse momento? Sim!! Ah, tem a cena da dança estilo  Elizabeth e Darcy também]

Liberdade de expressão 

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A trama sempre flertou de forma inteligente com temas tão importantes. Em um dos episódios, a personagem Josie (Miranda McKeon), colega de Anne da escola, é abusada por um menino tendo um beijo roubado sem o seu consentimento, e é claro que a culpa recai sobre ela e não ao contrário. Obviamente, Anne se revolta, escreve no jornal da escola um artigo chamado “O que é Justo?”, falando sobre o que afeta todo um gênero e isso acaba irritando os homens brancos, conservadores que comandam Avonlea.

“Mulheres tem importância por si só, não somente em relação a um homem (…) Merecemos o direito de autonomia de nossos corpos, de sermos tratadas com dignidade e respeito.De dizermos ‘pare’ e sermos ouvidas ao invés de desacreditadas e escutarmos que homens sabem mais sobre nossos direitos básicos e desejos do que nós mesmas.”

Ao tentarem silenciar os alunos, seus pensamentos e novas ideias, Anne convoca todos a fazer uma manifestação organizada, e é uma cena de arrepiar. Mas é claro que isso gera consequências, desafiar os poderosos desencadeou em perdas, embora também tenha gerado reflexão para o povo. Outro ponto que preciso destacar aqui é que a Moira trabalhou muito bem o local de fala, de forma quase imperceptível, as ideias de Anne escritas no artigo só foram bem recebidas pelos seus colegas da escola depois que o Gilbert leu e os questionou sobre, ou seja, o discurso da Anne só foi legitimado por um homem, ainda que um homem adorável, mas foi isso que aconteceu.

Bash

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Anne é uma das poucas séries que abordam o racismo sem preguiça, que traçou com o seu pouco espaço um caminho comovente e reflexivo. Bash (Dalmar Abuzeid),  introduzido na segunda temporada através de uma amizade construída com o Gilbert em suas viagens como minerador em um navio, se tornou um personagem complexo, com camadas e lições a ensinar. Apesar da escravidão ter sido abolida na época em que a série se passa, os negros ainda eram marginalizados e excluídos da sociedade, e a série não foge nenhum momento desses debates.

Homem negro e consciente do peso que a escravidão casou, Bash se mostra ambicioso e gentil, querendo mudar sua perspectiva de vida, construindo aos poucos uma vida melhor. Sua mãe que retorna também nesta temporada, descortina o outro lado da moeda, a mulher negra que viveu a vida a servir. Bash necessita reavaliar sua relação com a mãe, uma mulher dura e rígida, mas que na verdade, teve uma experiência de vida diferente da dele, vendo seu marido ser enforcado por causa de sua ambição, ela apenas passou a vida a tentar proteger o seu primogênito – o Bash – do poder do homem branco. Para ela, ele tinha que saber o seu lugar se quisesse sobreviver. É justamente por isso que a trajetória do Bash é tão necessária, Anne with an E entende o peso que até hoje a escravidão deixou na nossa sociedade, e ela questiona, mostra, expõe as feridas causadas.

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Mesmo com todos esses pontos positivos a seu favor, a Netflix anunciou que essa será a última temporada da série. Quem me acompanha aqui no blogue sabe que essa se tornou minha série favorita, você pode ler a Carta de amor à Anne With an E, escrevi pouco tempo depois de conhecê-la, então é uma notícia muito triste para mim. Uma história que acaba tão precocemente, que ainda poderia render muitos aprendizados, afinal, os livros narram até a velhice de Anne. Enquanto isso, o público de séries destina suas atenções para produções no estilo game of thrones, como é o caso de The Witcher que chegou a pouco no catálogo e já foi renovada, ou mesmo, Riverdale que coloca personagens cheios de esteriótipos e sexualiza os adolescentes. Pena. Nos despedimos aqui de uma garota ruiva, sardenta, com inseguranças quanto a sua aparência mas completamente ciente da sua personalidade bondosa e corajosa, que abriu espaço pra uma mulher dona de si, com um futuro brilhante pela frente, aliás, Anne está indo para a faculdade na Queen’s e rodeada por pessoas que a amam.

A notícia do cancelamento causou verdadeira comoção nos fãs que não mediram esforços nas redes sociais, chegando a quebrar recordes e tornar-se notícias em jornais e sites, mas é claro que os fãs de Anne entendem de luta, e como. A série alcançou um público tão fiel devido a sua capacidade de provocar esperança, falar sobre temas sérios de forma sensível e trazer  personagens tão bem construídos que se desenvolveram ao longo dessas três temporadas de maneira natural e necessária, despertando.

Vai ser difícil encontrar uma série tão completa assim, já podemos notar pela quantidade de séries genéricas que entram no streaming, uma história como a de Anne é rara. Mas estarei sempre atenta, aliás, tudo que a gente mais precisa é de um pouco mais de sensibilidade.

Anne With an E “estou muito triste de vê-la partir, mas muito feliz por tê-la conhecido.”

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4 comentários Adicione o seu

  1. Eduardo Beserra de Siqueira disse:

    Como sempre, arrasa em cada colocação.

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    1. Maby Ferreira disse:

      Eita, Léo! Obrigada. 💛

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  2. Mayara Freire disse:

    Parabéns pelo texto, sempre muito bem costurado!
    Só esperava ter um fim sobre Ka’kwet, mas talvez não ter aquele fim fechado, seja o fim do enredo dela. É muito sofrido, mas perpassa pela realidade que se tinha naquela época (o que torna tudo ainda mais cruel).
    Amei as pontuações que você fez, coisas que eu dava pausa e resmungava indignada kkkkk
    Anne é grande de alguma forma (ou de várias formas) mas ainda assim é uma adolescente com impulsos, imediatismo, ânsia de mudar tudo e as vezes sem medir as consequências das próprias ações, a série não deixa de demonstrar isso em algumas passagens, mais uma vez tocando de forma sutil a realidade: todo mundo erra, principalmente quando se quer mudar as coisas.

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    1. Maby Ferreira disse:

      Estou aqui apenas para concordar com você porque você é sempre tão bem articulada nas suas palavras, você enxerga todos os detalhes. rsrs 💛

      Ah, Simm, a Moira produtora da série disse que o final que soa em “aberto” da Ka’kwet na verdade não é um final feliz, ela disse que era o retrato do que realmente acontecia na época, que infelizmente era cruel. Eu gostaria de saber mais da história? Sim, gostaria, mas de qualquer forma foi uma temporada muito bonita e bem amarrada.

      Curtido por 1 pessoa

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